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Tecnologia Digital em Saúde

SBMI - Tecnologia Digital em Saúde

As tecnologias disponibilizadas pela telemedicina, em muitos casos, representam mudanças devendo haver um processo de aceitação geral para uma efetiva intermediação tecnológica que ela providencia. Ou seja, a substituição do contato presencial pelo virtual é um desafio adicional no que tange à visão tradicional da prática da medicina e das expectativas sobre os serviços de saúde, tanto para os profissionais como para os usuários. Ultrapassar barreiras culturais, institucionais e profissionais é uma etapa importante no processo de disseminação e consolidação da telemedicina (Maldonado, Marques, Cruz, 2016).

Diante dessa condição, é indiscutível que a telemedicina proporciona significativa economia de dinheiro, tempo e distância, aspecto de fundamental importância para igualdade de informações e assistência à saúde em locais afastados e remotos, principalmente rurais. Essas economias mostraram-se também promotoras de maior adesão em tratamentos e fornecimento de diagnósticos mais rápidos em diversas subáreas da medicina, como: radiografia, cardiologia, oftalmologia, pediatria, neurologia, clínica, psiquiatria, ortopedia e cirurgia.

A Resolução CFM nº 1.643/2002 Art. 1°:
“Define a Telemedicina como o exercício da Medicina através da utilização de metodologias interativas de comunicação audiovisual e de dados, com o objetivo de assistência, educação e pesquisa em Saúde.”

A SBMI vislumbra Telemedicina como a troca de informação de profissionais de saúde de um ambiente para outro, utilizando de tecnologias de comunicação.

Saúde Digital: definição

Antes de responder diretamente a esta pergunta, é interessante analisarmos como recentes avanços modificaram a dinâmica mundial da informação.

O notável e visionário Isaac Azimov descreveu como elementos disruptivos mudariam a dinâmica da informação no cenário mundial. Não muito distante, em 1988, ele já comentava aspectos da embrionária Internet:

“Once we have computer outlets in every home, each of them hooked up to enormous libraries, where you can ask any question and be given answers, you can look up something you’re interested in knowing, however silly it might seem to someone else.”

“Now, with the computer, it’s possible to have a one-to-one relationship for the many. Everyone can have a teacher in the form of access to the gathered knowledge of the human species.”

“One essential thing would be a screen on which you could display things, and another essential part would be a printing mechanism on which things could be printed for you. And you’ll have to have a keyboard on which you ask your questions’ although ideally I would like to see one that could be activated by voice.”

Também previu como o mundo mudaria com o advento dos Smartphones e Tablet:

“Communications will become sight-sound and you will see as well as hear the person you telephone. The screen can be used not only to see the people you call but also for studying documents and photographs and reading passages from books.”

Essas aquisições redefiniram o mundo que conhecemos. O acesso à informação passou a ser imediato, à palma da mão e universal.

Apenas como elemento ilustrativo, verificamos o crescimento exponencial de conteúdo nas mais diversas áreas de conhecimento. Na saúde, por exemplo, podemos avaliar a velocidade de crescimento de conteúdo em saúde. Vamos dar uma olhada nos dados do Pubmed:

Vejamos agora o conceito do Ministério da Saúde sobre Saúde Digital:

“Saúde Digital compreende o uso de recursos de Tecnologia de Informação e Comunicação (TIC) para produzir e disponibilizar informações confiáveis, sobre o estado de saúde para quem precisa, no momento que precisa. O termo Saúde Digital é mais abrangente do que e-Saúde e incorpora os recentes avanços na tecnologia como novos conceitos, aplicações de redes sociais, Internet das Coisas (IoT), Inteligência Artificial (IA), entre outros.”

Trata-se por definição de um conceito bastante amplo, inclusivo, com disponibilidade imediata. Incorpora aspectos importantes prevendo desde interações pelas Redes Sociais até ferramentas de apoio em saúde, como a Inteligência Artificial.

Importância de uma Estratégia de Saúde Digital (ESD) em âmbito nacional

Conforme propõe o Pacote de Ferramentas da Estratégia Nacional de e-Saúde (National eHealth Strategy Toolkit), elaborado pela Organização Mundial de Saúde em conjunto com a União Internacional das Telecomunicações (OMS/UIT) em 2012, a construção de uma Estratégia de Saúde Digital (ESD) deve ser desenvolvida com o objetivo de utilizar recursos de TIC para resolver problemas do sistema de saúde e, portanto, é essencial que ela tenha o planejamento do sistema de saúde como norte para, a partir dele, prospectar possíveis soluções de TIC capazes de apoiar a consecução e o monitoramento de seus objetivos. Seguindo as diretrizes da OMS/UIT, a Estratégia Brasileira é orquestrada pelo DATASUS/SE/MS para ser uma ambição factível e inspiracional, que busca nortear e alinhar as diversas atividades e projetos públicos e privados, potencializando o poder de transformação da saúde digital no Brasil.

A Estratégia de Saúde Digital e a COVID-19

A pandemia do Coronavírus evidenciou de forma cristalina a importância da informação oportuna e precisa como instrumento de operação de tomada de decisão para as necessidades de curto, médio e longo prazos em saúde. O cenário dinâmico e de grande risco à população provocado pelo novo Coronavírus, exigiu respostas contundentes de todo o sistema de saúde e, em especial do SUS, para coordenar as ações nacionais e orquestrar os esforços de estados, municípios e mesmo da Saúde Suplementar.

Assim, o Programa Conecte SUS, principal iniciativa da Estratégia de Saúde Digital, foi impulsionado a priorizar as ações para que estejam em pleno alinhamento com as necessidades nacionais de combate à COVID-19. A Rede Nacional de Dados em Saúde, RNDS, foi rapidamente alçada à posição de repositório nacional de dados da COVID-19, passando a integrar as ações de recebimento, processamento e disponibilização de notificações de agravos, resultados de exames e ocupação de leitos por Coronavírus. O DATASUS se mobilizou rapidamente para que a RNDS passasse a ser, também, a grande integradora de serviços sobre a COVID-19, como a teleconsulta, novos aplicativos voltados para autoavaliação de usuários, e a disponibilização de informação para o usuário sobre a doença e, também, sobre a situação da pandemia, para cidadãos, profissionais de saúde e gestores.

O Programa Telessaúde Brasil Redes é uma iniciativa em âmbito nacional que busca melhorar a qualidade do atendimento e da atenção básica no Sistema Único da Saúde (SUS), integrando ensino e serviço por meio de ferramentas de tecnologias da informação, que oferecem condições para promover a Teleassistência e a Teleducação.

A proposta do Telessaúde

O Telessaúde Brasil Redes disponibiliza aos profissionais e trabalhadores das Redes de Atenção à Saúde no SUS os seguintes serviços:

Teleconsultoria – é uma consulta registrada e realizada entre trabalhadores, profissionais e gestores da área de saúde, por meio de instrumentos de telecomunicação bidirecional, com o fim de esclarecer dúvidas sobre procedimentos clínicos, ações de saúde e questões relativas ao processo de trabalho, podendo ser síncrona (realizada em tempo real, geralmente por chat, web ou videoconferência) ou assíncrona (por meio de mensagens off-line);

Telediagnóstico – é um serviço autônomo que utiliza as tecnologias de informação e comunicação para realizar serviços de apoio ao diagnóstico através de distância e temporal;

Tele-educação – conferências, aulas e cursos, ministrados por meio da utilização das tecnologias de informação e comunicação; e

Segunda Opinião Formativa – é uma resposta sistematizada, construída com base em revisão bibliográfica, nas melhores evidências científicas e clínicas e no papel ordenador da atenção básica à saúde, a perguntas originadas das teleconsultorias, e selecionadas a partir de critérios de relevância e pertinência em relação às diretrizes do SUS.

As Teleconsultorias, os Telediagnósticos, as Segundas Opiniões Formativas e as ações de Tele-educação demandadas pelos profissionais de saúde do SUS poderão ser elaborados e respondidos por Teleconsultores a partir de qualquer Núcleo de Telessaúde Técnico-Científico ou Ponto de Telessaúde.

Em 2005, tivemos a oportunidade de publicar, junto com o Prof. Chao Lung Wen e Prof. Dr. Helio MIot, referências em Telemedicina, qual impactante seria essa mudança de paradigma trazida pela tecnologia.

“Incorporating the use of technologies (whether information technology or not) in medical routine has been constant in the evolution of medicine, and this practice has led to optimizing clinical processes. The great visual component associated to dermatological practice and the advances of telecommunication systems make dermatology an area with huge potential to apply telemedicine resources. In fact, dermatological telemedicine already stands out in the international scenario. The reality of the on-going projects in Brazil should make dermatologists consider this modality of interconsultation, in addition to possible long- distance education in order to minimize the problem of physical distance.”

Outro importante aspecto em Telessaúde diz respeito à Teleducação. O acesso à informação em Saúde integrada à Assistência é um desafio. Elaboramos um Modelo de Educação em Saúde, voltado para as Equipes de Saúde da Família na região Amazônica no combate à hanseníase, e que foi objeto do meu doutorado. De forma gratificante, o trabalho demonstrou a importância da Educação em Saúde como um alicerce fundamental para o desenvolvimento desta proposta ampliada que é a Saúde Digital.

A abrangência envolvida no conceito de Saúde Digital é enorme. Dentro da proposta sugerida pelo Ministério da Saúde e recomendada pela Organização Mundial da Saúde, essa Estratégia integrada em Saúde demonstra a complexidade de conceitos, temas e ações envolvidos desde seu planejamento, até a sua execução e controle. A perspectiva de abordagem contado com Saber Interdisciplinar, e mais do que isso, entendo a Saúde do indivíduo como uma proposta integral, torna muito oportuna a reflexão em Saúde Digital, com um novo olhar para o futuro. É evidente, que o seu emprego, tecnologia dependente, não se distancia dos preceitos éticos e morais. A mudança de paradigma impõe desafios, mas o cenário de COVID-19 permitiu demonstra que é possível um desenvolvimento assertivo, pois o problema intrínseco não é a tecnologia per si, mas sim o emprego indevido desta técnica, recurso, como aliás pode acontecer em qualquer ação com proposta negativa ou detratora, seja ela mediada ou não por tecnologia.

Referências: